terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Por causa da morte do cineasta Theo Angelopoulos nesta terça feira ( 24/01/12 ) acabei me lendo o roteiro de uma cena do filme "Paisagem na neblina" e achei sensacional. Creio que os que o lerem depois de mim também o acharão.

Segue:

Dois irmãos, Voula e Alexander, em busca do pai que nunca conheceram, numa Grécia seca, abandonada, cinza, suja, e por isso densa, misteriosa, poética.
Vou à (minha) imagem.

Câmera estática, acostamento de uma estrada vazia, reta sem fim. Pela esquerda um caminhão encosta e para na (nossa) frente, uns dez metros. O motorista salta, puxando Voula pelo braço — teria ela uns doze anos? Não sei, mas era nova —, ela que com o irmão pegara carona cenas atrás. O motorista força a menina a subir na traseira do caminhão, que é coberta por uma lona, e segue atrás dela, desaparecendo na escuridão.

(Não lembro de ouvir som algum, nenhuma pontuação.)

A câmera segue fixa, insuportavelmente fixa durante dezenas, centenas, milhares de segundos, naquele breu, naquele escuro nada, mais denso do que a morte. Sem sobressaltos, exceto o dos nossos estômagos, surge o corpanzil do motorista, o primeiro a descer, e somos violentamente obrigados a vê-lo abotoar a calça, ajeitar a braguilha e a camisa, e seguir com toda a tranqüilidade (que nos falta) pela lateral esquerda do caminhão, retomando o seu lugar na direção. (Essa última frase é subentendida, não há nada em celulóide, já que o ângulo não nos permite ver.) Logo atrás dele, desce a menina, com um pouco de dificuldade — o caminhão é alto —, ajeita a saia em desalinho, abotoa a blusa, caminhando lenta e desconfortavelmente, parece. Ela segue à nossa direita, em direção ao lugar do carona, onde Alexander permaneceu todo esse tempo. E nem chega a subir novamente, é o irmão que sai, posto para fora pelo motorista, ficando ao lado da irmã. E entre eles e nós segue a mesma, nem tão próxima a ponto de permitir-nos ajudá-los, quem sabe espantando aquele monstro, amparando-os de alguma forma; nem o suficientemente distante, de um jeito que nos permitisse fingir que aquilo não acontecera.

O caminhão segue a estrada. As crianças começam a andar, afastando-se também. E nós, atados à câmera, ficamos.

Não lembro de ter visto cena tão violenta antes. Violação dos meus olhos, que se pensavam já tão calejados.


Triste.


Reginaldo




Nenhum comentário: